Monday, November 9, 2009

Até já


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

Saturday, November 7, 2009

Sem auto-comiseração


Era tarde e eu não vinha exactamente bem, mas estava quase a chegar a casa. Fui mandada parar pela BT: documentos, a conversa do costume, o carro revistado e mandam-me sair para eu ver que tenho o médio esquerdo fundido. Empenhadíssimos no seu trabalho, ficam-me com o livrete e tal e dizem-me que tenho uma semana para arranjar a avaria e depois ir à esquadra mostrar "a viatura reparada". Enquanto escreviam o testamento punitivo das leis e das regras em que falhei, volto para dentro e ouço o Elton John a cantar "Sorry seems to be the hardest word". Desmanchei-me a chorar, puta do sentido de timing, porque eu bem que a usei e não adiantou de nada. Menina, então 'tá a chorar por causa duma coisa destas? Não vale a pena.
Na primeira visita à esquadra, volto de mãos a abanar - ali só se trabalha das nove às cinco e a pessoa que tem a chave do armário dos documentos não está. E anda o meu irmão a trabalhar na Tanzânia, achando que a civilização é aqui. Pois sim. No segundo round, tudo nos conformes, luzes a funcionar, passa para cá as minhas coisas mas sabe que vai ser multada na mesma? Vou o quê, senhor agente? Mas então eu não cumpri o que me foi pedido? Cumpriu, mas diz a lei que não pode circular assim e que por isso tem de pagar uma coima. Vai chegar-lhe a casa, dentro de uns dias. Bato a porta do carro com mais força ainda que o normal e rio-me da merda que é a conjugação cósmica por que tenho passado. Se eu quisesse aplicar esta história idiota à minha vida, a moral seria exactamente a mesma: falho, e tento solucionar para cumprir, mas saio na maior parte das vezes a pagar. E a perder.

Thursday, November 5, 2009

Welwitschia mirabilis

Quando eu era miúda e andava na escola primária, tive uma paixoneta que havia de durar até à altura da minha viagem profissional para Timor. Lembro-me de estar num sítio manhoso, em Díli, a ler uma carta do P. a perguntar como é que eu estava e se eu sabia a falta que lhe fazia. Tenho uma data de cartas e bilhetes que fomos trocando e ainda hoje me divirto com isso, porque nós nem um beijo chegámos a dar. Mas a escrita no papel está lá e perdura, em maços pequenos atados com umas fitas de cetim que eu costumava usar no cabelo, em dias de festa.
Esta coisa das novas tecnologias tem um (entre muitos) grande problema: onde é que guardo os mails que recebi e enviei? Ou melhor, sempre que me apetece relê-los tenho que me sentar e ligar o computador? Epá e não me digam para os imprimir e não sei quê. Não tem piada. Simplesmente não tem. Para além do papel, perde-se o fascínio da letra, de olhar para ela e daí tirar toda uma série de conclusões (quase sempre erradas porque o tempo tem o condão de toldar muita coisa) que geram aquele suspiro de saudades ou um sorriso mais condescendente para com as figuras que já fiz.
Devia haver um acervo, um arquivo qualquer onde pudéssemos guardar todas as cartas, mails e sms: dos amores que funcionaram, dos não correspondidos, dos frustrados, dos platónicos, dos que hão-de vir, mas sobretudo daqueles que têm uma raiz sólida e funda que cresce no que há de mais subterrâneo em nós. Como aqueles cactos que vivem no deserto sem necessitar de muita água e alimento e que, sem que nada o fizesse prever, acabam por revelar uma flor carnuda, ainda que perene.

Wednesday, November 4, 2009

Claro que é para ti




"O rádio sempre a tocar um coração avariado que não posso desligar."

Monday, November 2, 2009

Sabem aquele género de mulher que é exigente até dizer chega,

Sabem aquele género de mulher que é exigente até dizer chega, que nunca se contenta com as coisas como elas são e acha que pode fazer sempre melhor? Que os outros podem fazer sempre melhor? Que é perfeccionista e picuínhas? Que sabe do seu valor e que por isso mesmo se julga no direito de querer ao lado dela alguém com doses equilibradas de sensibilidade, racionalidade, pragmatismo, cultura e sentido de humor? Que a respeite e ature todas as neuras, percebendo que às vezes o melhor mesmo é dar-lhe silêncio? Que, sendo dona do seu nariz, está habituada a desenrascar-se sozinha, a pensar sozinha, a fazer tudo sozinha e que por isso mesmo não percebe a coisa de lhe quererem levar os sacos do super, mas que depois fica fodida se, ao entrar no prédio, não têm a delicadeza de a deixar passar em primeiro lugar? Que gosta muito do seu espaço e que depois reclama e cobra dos abraços e dos beijos que não recebeu? Aquela mulher que não vai na onda de enviar constantemente mensagens e de telefonar porque isso é ser cola e ela é independente, mas que fica chateada e triste se não lhe respondem num período razoável de tempo? Que adora ser livre, mas ter uma asa amarrada? Que prefere tascas a restaurantes caros, mas que não se importa mesmo nada que a levem a jantar a um sítio perto do mar, e que lhe dêem flores e dancem com ela? Que abomina lamechices e afinal o que mais gosta é de receber poemas de amor, cartas de amor, mails de amor, bilhetinhos de amor? Que peita muita coisa com indiferença e petulância, quando afinal é uma mariquinhas pé-de-salsa que só quer mimos e bilhetes (de amor) daqueles bons de guardar em caixinhas de madeira? Que acaba a noite a ler coisas que escreveu e nunca mandou para quem gosta, por vergonha do ridículo?
É aquele género de mulher que acha que escrevendo de forma distanciada sobre um determinado tipo de mulher, os outros não vão perceber que ela está a falar dela mesma. Porque o que ela quer no fundo é que percebam. Mas que não lho digam.

Tuesday, October 27, 2009

Óinc


Malta amiga

O tempo é pouco e aquele que me sobra tem sido empenhado na nobre tarefa de dormir. Se julgam que isso faz de mim uma pessoa melhor ou mais tranquila, desenganem-se. No domingo de manhã acordei aflita, à procura de um espelho. Eu tinha de me ver, tinha de confirmar antes de voltar à realidade. Porquê? Sonhei que andava a correr pela estação de metro do Marquês, enquanto sentia um calor estranho a subir-me pela cara. Toquei-a no lado esquerdo e foi aí que vi: tinha-me nascido mesmo ali, de um vermelho cor de vinho, uma orelha de porco. E toda a minha preocupação, durante o resto do sonho, consistiu em saber como raio ia esconder o meu lado mutante para poder ir trabalhar.

Alguém me empresta Freud pa descortinar isto?

Tuesday, October 13, 2009

É mesmo disto que eu preciso


Bem sei que ainda falta muito para o Natal. Mas se quiserem pensar em prendas para mim, esta é a ideal.