Thursday, November 5, 2009

Welwitschia mirabilis

Quando eu era miúda e andava na escola primária, tive uma paixoneta que havia de durar até à altura da minha viagem profissional para Timor. Lembro-me de estar num sítio manhoso, em Díli, a ler uma carta do P. a perguntar como é que eu estava e se eu sabia a falta que lhe fazia. Tenho uma data de cartas e bilhetes que fomos trocando e ainda hoje me divirto com isso, porque nós nem um beijo chegámos a dar. Mas a escrita no papel está lá e perdura, em maços pequenos atados com umas fitas de cetim que eu costumava usar no cabelo, em dias de festa.
Esta coisa das novas tecnologias tem um (entre muitos) grande problema: onde é que guardo os mails que recebi e enviei? Ou melhor, sempre que me apetece relê-los tenho que me sentar e ligar o computador? Epá e não me digam para os imprimir e não sei quê. Não tem piada. Simplesmente não tem. Para além do papel, perde-se o fascínio da letra, de olhar para ela e daí tirar toda uma série de conclusões (quase sempre erradas porque o tempo tem o condão de toldar muita coisa) que geram aquele suspiro de saudades ou um sorriso mais condescendente para com as figuras que já fiz.
Devia haver um acervo, um arquivo qualquer onde pudéssemos guardar todas as cartas, mails e sms: dos amores que funcionaram, dos não correspondidos, dos frustrados, dos platónicos, dos que hão-de vir, mas sobretudo daqueles que têm uma raiz sólida e funda que cresce no que há de mais subterrâneo em nós. Como aqueles cactos que vivem no deserto sem necessitar de muita água e alimento e que, sem que nada o fizesse prever, acabam por revelar uma flor carnuda, ainda que perene.

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